Nota Técnica da Faciap mostra que brasileiros transferiram até R$ 21 bilhões por mês para empresas de apostas e aponta reflexos sobre famílias, pequenos negócios e economias municipais
A expansão das apostas on-line no Brasil deixou de ser apenas uma questão de entretenimento. O crescimento das bets também representa um risco à saúde financeira das famílias e à circulação de renda no comércio e nos serviços, alerta Nota Técnica elaborada pela Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná, Faciap.
O documento reúne dados do Banco Central, do Ministério da Fazenda, do Tribunal de Contas da União e do Ministério da Saúde.
Estimativa preliminar do Banco Central aponta que, nos primeiros oito meses de 2024, os brasileiros transferiram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês para empresas de apostas on-line. Cerca de 24 milhões de pessoas realizaram ao menos uma transferência via Pix no período.
Em agosto daquele ano, aproximadamente 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às plataformas, valor equivalente a 21% do total repassado pelo programa naquele mês.
No mercado regulado, 17,7 milhões de brasileiros apostaram no primeiro semestre de 2025. A receita bruta das operadoras, já descontados os prêmios pagos, alcançou R$ 17,4 bilhões, com gasto médio estimado em R$ 164 por apostador ao mês.
O volume pode ser ainda maior. Segundo o Tribunal de Contas da União, o mercado ilegal pode representar entre 41% e 51% do total apostado no país.
Menos renda para o consumo
A análise amplia uma agenda iniciada pela Faciap em maio de 2026, quando a entidade publicou estudo sobre crédito consignado, superendividamento e comprometimento da renda.
Embora tenham mecanismos diferentes, o crédito excessivo e as apostas recorrentes podem produzir efeito semelhante: reduzir os recursos disponíveis para despesas essenciais e para o consumo.
Nas bets, há ainda o risco de novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro perdido, aprofundando a vulnerabilidade financeira.
Para a Faciap, quando parte da renda familiar deixa de ser destinada a supermercados, farmácias, serviços e pequenos negócios, os efeitos ultrapassam o orçamento individual. A redução do consumo afeta as vendas, adia a contratação de serviços e enfraquece a economia dos municípios.
Os impactos também aparecem na saúde. Os atendimentos do Sistema Único de Saúde relacionados a jogo patológico cresceram 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025, totalizando 10.553 ocorrências.
Mais de 500 mil pessoas já recorreram à Plataforma Centralizada de Autoexclusão, criada pelo Governo Federal para bloquear o acesso às casas de apostas autorizadas e interromper o recebimento de publicidade direcionada.
Desde julho de 2026, novas regras exigem advertências nas propagandas e proíbem mensagens que apresentem apostas como investimento, fonte de renda ou solução financeira.
A Faciap não se posiciona contra o mercado legal de apostas. A preocupação da entidade está nos efeitos do uso excessivo, da publicidade indutora e da atuação das plataformas ilegais sobre a renda das famílias e a economia.
A Federação defende fiscalização rigorosa, combate ao mercado clandestino, educação financeira, fortalecimento dos mecanismos de autolimitação e autoexclusão e proteção especial a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade.
Para a entidade, preservar a renda disponível deve ser uma agenda permanente. Quando o consumidor perde capacidade de compra, o impacto chega ao comércio, aos serviços, aos pequenos negócios e à economia dos municípios.
Confira o estudo da Faciap na íntegra!